Fatal Frame II: Crimson Butterfly | Um Clássico do Terror que Recusa Morrer
- XP Couple
- 30 de mar.
- 6 min de leitura
Atualizado: 1 de abr.
Fatal Frame II: Crimson Butterfly é um dos jogos mais icónicos da era PlayStation 2,
desenvolvido pela Tecmo (hoje conhecida por Koei Tecmo) e lançado no Japão e América em 2003, tendo chegado à Europa apenas no ano seguinte.
Com mão de um dos criadores do primeiro jogo da saga, Makoto Shibata, a intenção
era clara desde o início: criar um jogo em que o intuito não era apenas sobreviver, mas
sim, assistir a uma história inevitavelmente trágica.
Quando o Amor se Torna Prisão
O plano nunca foi ter um jogo comum de "terror ocidental" com sustos rápidos e
inesperados, mas sim criar um terror profundamente Japonês na sua origem, baseado
em lendas urbanas, rituais antigos, o conceito de yūrei (fantasmas e espíritos com
emoções não resolvidas) e a inevitabilidade da morte.

A história em si segue duas irmãs gémeas, Mio e Mayu, que se tornam o foco do enredo ao fugirem do destino que lhes aguarda e que não desiste em as perseguir. Entre fantasmas, espíritos vingativos e aqueles que continuam a fazer com que o passado se repita, é aqui que aprendemos que este não é apenas um jogo de terror, mas sim uma história sobre amor, perda e até onde somos capazes de ir por alguém.
Camera Obscura: O Olhar Como Arma
Os focos em termos de gameplay são dois, resolver vários puzzles e enfrentar vários
inimigos que bloqueiam o nosso caminho, este último através da Camera Obscura, um
dispositivo que auxilia em todos os aspetos. Esta tradicional câmara tem o poder de
captar momentos que já ocorreram, segredos ao nosso redor e de observar os diversos
espíritos, amigáveis ou agressivos, que habitam a aldeia, permitindo até exorcizá-los
com fotografias bem tiradas.
Ao longo da aventura é possível encontrar vários tipos de rolos de filme com propriedades distintas e Prayer Beads para melhorar algumas métricas do nosso aparelho, além de filtros que desbloqueiam novas funcionalidades.

Porque no mundo de Fatal Frame, não é correr ou lutar: é olhar. A Camara Obscura
transforma olhar em poder, revelando segredos, pistas e triggers na história dependendo do tipo de "filtro" e filme que utilizamos, sendo também o nosso único mecanismo de ataque e defesa.
Querendo novamente fugir ao típico terror ocidental, não há como escapar, tendo
sempre que enfrentar de frente quem nos ataca (salvo algumas exceções), criando
assim uma tensão psicológica única, diferente dos típicos "jump scares".
O mecanismo de Camera Obscura foi introduzido no primeiro Fatal Frame (Project
Zero) em 2001, tendo sido uma inovação num mercado saturado de videojogos com
armas como defesa e ataque - apesar disso, a sua sequela foi quando se tornou
verdadeiramente icónica e refinada, apresentado uma variedade maior de espíritos,
necessidade de estratégia nas fotografias (distância, ângulo, timing), e passando
também a interagir diretamente com a narrativa do jogo.
Em Crimson Butterfly, tornou-se numa extensão da própria história, não só uma arma.
Experiência modernizada, mas não isenta de problemas
A jogabilidade de Fatal Frame recebe várias atualizações que visam refrescar a
experiência como um todo, numa tentativa de cativar uma nova geração de jogadores
que não tiveram as suas mãos no título original de 2003.
Sendo este o meu primeiro mergulho neste universo, não vou abordar se esta é uma melhoria ou não, optando antes por dar uma perspetiva das implementações como um jogo moderno e avaliar se estão à medida.

Ainda que o combate funcione bem e tenha margem para demonstrar a perícia adquirida ao longo dos vários encontros hostis, não deixa de ter as suas peripécias.
Oferecendo espíritos com barras de vida progressivamente mais duras de desfazer e
padrões de movimento que obrigam a uma atenção redobrada, as primeiras horas são
as mais difíceis de ultrapassar, mas chegaram a ser bem piores.
Tendo começado a minha aventura pouco após o lançamento, as minhas primeiras excursões por Fatal Frame foram extremamente frustrantes, com lutas que se arrastavam demasiado e um elevado volume de inimigos que recuperavam partes da sua barra de HP, tornando a progressão na história uma verdadeira dor de cabeça.
Além disso, existe um inimigo que é impossível de derrotar até aos momentos finais do
jogo, obrigando o jogador a ter que fugir de forma a esconder-se sempre que se depara
com ele, levando a momentos fatigantes em que o jogador só tem praticamente um
caminho correto para percorrer, nos quais uma curva errada significa o encontro letal
com um beco sem saída, resultando em instâncias onde tive que repetir várias vezes
determinadas secções.

O jogo também inclui algumas secções que me obrigaram a seguir uma cadeia específica de eventos que nem sempre eram intuitivos, deixando-me a vaguear por designs de domicílios dignos de um labirinto durante longos períodos de tempo sem progresso aparente, num aspeto do jogo que podia igualmente ser melhorado. Felizmente, no que toca aos inimigos básicos, o estúdio foi expedito a ajustar a dificuldade desmedida e a experiência no seu geral ficou muito melhor balanceada, resultando num combate que, conforme os upgrades à nossa máquina vão sendo feitos, se torna melhor e mais satisfatório, ainda que tenha chegado a um ponto em que os duelos se resolviam em duas fotografias bem aplicadas em grande parte dos encontros.
Passando bem por algo num título lançado nos dias de hoje, com bons puzzles para
resolver e combate interessante, este também sofre de problemas que me causaram
imensa frustração e momentos nos quais que ficava preso em algumas zonas, num
aspeto misto que tira algum brilho do título.
Ambiente intenso e bem executado
Bem longe das limitações técnicas encontradas na PlayStation 2 e na Xbox original,
este remake traz consigo uma atmosfera pujante e extremamente consistente.
A vila abandonada e os seus interiores oferecem uma escuridão assombrosa, apenas
iluminada por tochas, pela nossa lanterna e outros escassos pontos de luz, que mantêm a experiência bastante tensa durante toda a extensão da aventura. Mio e Mayu receberam boas atualizações visuais, ainda que sejam personagens com um estilo visual um pouco contrastante em relação ao que as rodeia, com voice acting muito bom.
Na minha máquina pessoal com uma RX9070XT e um Ryzen 7 5800X3D consegui rodar o título com tudo no máximo para alcançar o limite de 60 FPS em 4K com a ajuda de
upscalling..., e sim, este jogo inclui um teto máximo de 60 FPS no PC, cortando para 30
em cutscenes, que apenas pode ser removido com a ajuda de métodos externos. Além
disso, a única opção de upscalling para placas da Radeon é o FSR 2, solução que fica
uns bons furos atrás de versões mais recentes, mas, felizmente, como a experiência é
passada quase toda na escuridão, os artefactos desta tecnologia não são tão perceptíveis, contudo, é algo que podia ter sido melhor implementado.

Apesar de carecer de algum trabalho adicional de otimização, este é um título que oferece bons visuais e que, para quem tiver componentes capazes, consegue manter um nível estável de desempenho e apresentação no seu geral, sem grandes bugs ou outros problemas para serem apontados.
Uma Cápsula do Tempo Polida
Comparando lado a lado, a história mantem-se a mesma, apenas polindo o que já lá se
encontrava. Adiciona novos segmentos, finais e side-stories/locais, que poderão
aprofundar e expandir o mundo do jogo, enriquecendo a experiência sem alterar o
original.

Os gráficos originais de 2003 pertencentes à PS2 traziam-nos ambientes escuros e limites técnicos associados à época. Este remake oferece gráficos mais modernos, texturas e detalhes realistas que aumentam a imersão e atmosfera geral do terror.
A Camera Osbcura também foi merecedora de uns upgrades: filtros e funções
adicionais para ajudar com os inimigos mais agressivos também adicionados nesta
versão.
Típico dos survival horror da época, as câmaras eram fixas ou angulares, onde agora
em 2026 podemos disfrutar de câmara livre em terceira pessoa, mais próxima do
jogador, com movimento mais fluido.
Um bom remake com jogabilidade que por vezes atrapalha
Como estreante neste universo, as minhas horas passadas no mundo de Fatal Frame
foram, na sua generalidade, bem passadas, numa experiência intensa com uma
história ao estilo tradicional que lentamente me foi mostrando a sua mão.
Apesar de algumas frustrações em termos de jogabilidade que me causaram alguns dissabores e frustrações, este permanece um bom rejuvenescer de um clássico mais obscuro, servindo como uma ótima janela para quem procura uma história de horror à moda
antiga com bastante personalidade e um mundo bem realizado para se imergir.
Este remake prova que certos horrores são clássicos: só precisam de uma nova lente
para nos assustar de novo.





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